Igreja Presbiteriana do Cambeba – Reunião de oração e doutrina.

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Estudo da carta de Paulo aos Romanos: O reino de Deus é alegria e paz.

Texto base: Romanos 14.13-23 (parte 3)

Introdução

A questão dos relacionamentos continua requerendo nossa atenção. No contexto da carta aos Romanos, fortes e fracos precisavam aplicar o ensino do grande amor de Deus nos relacionamentos uns com outros. Igualmente temos a mesma necessidade. O amor aplicado nos convoca a acolher os irmãos e irmãs numa comunhão bela e santa, colocando de lado o zelo excessivo que julga e despreza o outro que é servo de Jesus, e por fim, requer uma compreensão exata da natureza do reino de alegria e paz onde vivem os filhos de Deus. Vejamos, pois a exortação de Paulo:

  1. Não faça seu irmão tropeçar (13-16)

Para viver em paz os cristãos de Roma deveria afirmar o cuidado com escândalo, em lugar de viverem julgando uns aos outros (13), em termos simples, significa decidir não por empecilho para os irmãos. De acordo com Paulo, aqueles que estão unidos a Cristo sabem que não há nenhum problema com os alimentos em si. É importante lembrar aqui o que disse Jesus: “Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa contaminar; mas o que sai do homem é o que o contamina.” (Marcos 7:15, RA). Logo, a questão não é o alimento em si, mas, se alguém considera um alimento impuro, isso deve ser levado em conta.

A impureza pertence não ao alimento como tal, mas à pessoa que questiona se deve ou não comer: mas se alguém considera algo impuro, então pare ele é impuro. Isso não significa que pecado seja totalmente uma questão de opinião ou consciência subjetiva. Não, na verdade há muitas coisas proibidas. A mera opinião da parte do homem, ou ainda o silêncio da consciência, não pode tornar certo o que Deus declarou ser errado. Significa, porém, que até uma atividade humana – no presente caso comer carne, que uma pessoa considere impura – é errada para aqueles que a consideram uma transgressão.[1]

O argumento de Paulo é o seguinte: “Se, por causa de comida, o teu irmão se entristece, já não andas segundo o amor fraternal. Por causa da tua comida, não faças perecer aquele a favor de quem Cristo morreu. Não seja, pois, vituperado o vosso bem.” (Romanos 14:15-16, RA). Precisamos considerar que Paulo está falando de crentes salvos por Jesus Cristo, isto posto, a lógica de Paulo é a seguinte:

Se Cristo o amou a ponto de morrer por ele, por que não podemos amá-lo o suficiente para controlar-nos, evitando magoar a sua consciência? Se Cristo se sacrificou por seu bem-estar, que direito temos nós de prejudicá-lo? Se Cristo morreu para salvá-lo, não nos importa se vamos destruí-lo?[2]

Em termos práticos, o ponto destacado por Paulo é para que o forte não constranja a consciência do fraco no tocante aos alimentos. Mesmo que seja censurável teologicamente assumir uma restrição de alimentos, isso não dá direito ao forte estragar (destruir) o discipulado do fraco. O amor fraternal não esmaga a consciência do franco, antes, o amor fraternal se autolimita se for o caso em respeito à consciência deles. É bom comer de tudo (sem culpa), mas quando isso não considera a cruz de Cristo, o bem corre o risco de ser vituperado. Como bem disse Calvino: “fazer violência ao amor por causa de comida é tornar impuro aquilo que é em si mesmo puro.”[3]

  1. O reino de Deus é alegria e paz (17-18).

A vinda do reino de Deus tem como ideia básica: a “autoafirmação real de Deus, da concretização do seu reino, de sua vinda ao mundo com o objetivo de revelar a sua majestade, o seu poder e o seu direto reais.”[4] No caso, se temos que acolher o irmão fraco sem esmagar sua consciência porque Cristo morreu por ele, devemos também considerar a natureza do Reino de Deus que é “justiça, e paz, e alegria no Espírito Santo.” (Romanos 14:17, RA).

O que Paulo argumenta agora é que, sempre que o forte insiste em usar a sua liberdade para comer o que quiser, nem que seja às expensas do bem-estar do fraco, ele está incorrendo em uma falha muito grave de desproporção. Está superestimando a importância da comida (coisa que é trivial) e subestimando a importância do Reino (que é central).[5]

Alegria, paz e justiça, no contexto geral da carta aos Romanos indicam a justificação em Cristo, a paz com Deus e alegria do Espírito no coração dos crentes. Sendo assim, aquele que busca o reino de Deus em primeiro lugar, agrada a Deus e aos homens, à medida que tem discernimento entre aquilo que é central, e aquilo que deve ser tido por secundário. O reino de Deus não é constituído de comida e bebida. Os cristãos de Roma tinham que considerar a natureza do reino em sua centralidade como algo muito mais importante que comida e bebida.

  1. Não destrua a obra de Deus (19-23).

Para que a comunidade cristã viva em paz é preciso ter cuidado para que uma atitude boa, ameace destruir a obra de Deus, quando supervalorizada. Tal atitude de destruição deve ser vista em contraste com o chamado a paz e a edificação (19-20), e não se trata de perder a salvação.

Não é a intenção do apóstolo ‘estabelecer lei’ acerca de comer e beber. Ele não está emitindo uma ordem; antes, de uma maneira paterna, ele está insistindo com a pessoa forte a voluntariamente restringir o uso da liberdade e fazer isso em consideração por seu irmão fraco em Cristo. Na presença dessa pessoa fraca, que ele se prive do privilégio de comer carne.[6]

No entendimento de Paulo, é certo que os alimentos são puros, mas é errado esmagar a consciência do fraco. Nesse sentido, é melhor tornar-se vegetariano, assumindo assim, uma postura de renúncia, que destruir o fraco por puro exibicionismo, ainda que corretamente baseado na doutrina da liberdade cristã. O ideal é todos procurem ser discretos nessas matérias divergentes e secundárias, procurando viver diante de Deus. Nesse caso, o forte deve procurar ser discreto em sua alimentação, considerando que a consciência do fraco nessa matéria pode levá-lo a pecar.

A liberdade interior não necessita ser expressa exteriormente afim de se desfrutar dela: pode-se gozar dela na própria vida – segredo conhecido tão-somente de nós mesmos e de Deus. E, se algum irmão fraco for prejudicado pelo fato de alguém dar expressão exterior à sua liberdade, então deveria contentar-se com a experiência interior dela, da qual Deus é a única testemunha.[7]

Conclusão

Existem questões secundárias, que pertencem ao domínio da liberdade cristã, e que permanecem ao Senhorio central de Jesus Cristo. Algumas dessas coisas secundárias são até boas, mas se forem usadas para atacar e esmagar a consciência dos mais fracos, o amor fraternal acaba sendo colocando de lado, removendo assim a santidade de nossos atos. Em nosso tempo ainda permanecem as questões referentes aos dias, comidas, questões estéticas, usos de vestimentas e etc. Sendo assim, quando esses pontos estiverem em choque, lembremos que Jesus morreu pelos fracos e pelos fortes. Lembremo-nos da centralidade do Reino diante das questões menores. Lembremo-nos da discrição e da prudência.  Seguindo o mandamento apostólico, certamente viveremos mais e melhor em comunidade. Recorramos à verdade que há neste antigo dito: “Nas coisas essenciais tenhamos unidade, nas coisas secundárias liberdade e em todas as coisas manifestemos amor uns pelos outros.”

Rev. Francisco Macena da Costa.

[1] HENDRIKSEN, William. Romanos. São Paulo: Cultura Cristã, 2001. p. 609

[2] STOTT, John. A mensagem de Romanos. São Paulo: ABU, 2000. p. 442

[3] CALVINO, João. Exposição de Romanos. São Paulo: Paracletos, 1997. p. 483

[4] RIDDERBOS, Herman. A vinda do Reino. São Paulo: Cultura Cristã, 2010.p. 36

[5] STOTT, John. A mensagem de Romanos. p. 443

[6] HENDRIKSEN, William. Romanos. p. 615

[7] CRANFIELD, C.E.B. Comentário de Romanos. São Paulo: Vida Nova, 2005. p. 315

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