Igreja Presbiteriana do Cambeba – Reunião de oração e doutrina.

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Estudo da carta de Paulo aos Romanos: O proceder do cristão frente o risco do juízo e do desprezo.

Texto base: Romanos 14.2-12 (parte 2)

Introdução

Juízo excessivo e desprezo pelo outro são desafios que ainda hoje repercutem na igreja cristã. Tanto no âmbito denominacional, como na igreja local temos que lidar com culturas, opiniões formadas e comportamentos que são diferentes. A questão entre fortes e fracos permanece entre nós, talvez assumindo uma nova roupagem, mas em essência, o problema é o mesmo, e reflete nossas limitações relacionais com nossos irmãos em Cristo. Então, como superar o juízo e o desprezo? Como proceder para que nossos relacionamentos sejam santificados? Vejamos, pois o que nos ensina o apóstolo Paulo:

  1. Como Deus aceitou devemos nos aceitar mutuamente (2-3).

No caso, alguns crentes não possuíam nenhum escrúpulo com respeito à comida por causa da liberdade em Cristo. Contudo, outros crentes aderiam a uma dieta sem carne, para não correr o risco de comer algo impuro. Nesse caso, a orientação de Paulo é a seguinte: “quem come não despreze o que não come; e o que não come não julgue o que come, porque Deus o acolheu.” (Romanos 14:3, RA).

Não temos o direito de desprezar e julgar quem Deus acolheu. Em lugar do desprezo e do julgamento, devemos acolher uns aos outros, assim como Deus nos acolheu em seu amor. “Não pode ser justo que um crente ouse pronunciar sentença contra alguém a quem Deus assim escolheu.”[1] Devemos tratar nossos irmãos tomando como referência o tratamento de Deus para com eles e não nossos critérios egoísticos.

  1. Os que foram acolhidos por Deus são servos de Jesus (4-9).

Em seu argumento, Paulo explica que é ultrajante querer se intrometer na relação entre um mestre e seu escravo. Da mesma forma, é totalmente fora de sentido querer interferir na relação entre o Senhor Jesus e o cristão. O crente vive para Cristo, e Cristo irá sustentá-lo, com ou sem, a nossa aprovação. (4) O mesmo critério vale, tanto para aquele que faz diferença entre dia e dia (festas, e dias separados segundo a Lei), como para quem não faz tal diferenciação. Tanto um, como o outro refletiram e tem a convicção de seu procedimento serve para honrar a Cristo. Em outras palavras, “ninguém deve fazer o que é contrário a consciência quando iluminada pela Palavra!”[2].

Nesse ponto, Paulo ainda acrescenta a questão da gratidão: no caso, quem come de tudo agradece pelo que Deus concedeu, e quem não come também agradece ao Senhor, logo, não temos o direito de nos intrometer no relacionamento entre Cristo e o cristão, porque, no dizer de Paulo:

Nenhum de nós vive para si mesmo, nem morre para si. Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. Quer, pois, vivamos ou morramos, somos do Senhor. Foi precisamente para esse fim que Cristo morreu e ressurgiu: para ser Senhor tanto de mortos como de vivos. (Romanos 14:7-9, RA)

Os crentes de Roma deviam entender que Cristo é o Senhor e os cristãos são os servos. Como servos devemos viver para Cristo e também para os nossos irmãos em cuidado e amor. “A vida de cada cristão influi nos seus irmãos em Cristo e nos seus semelhantes, e, portanto, esteve deve tomar em consideração a sua responsabilidade para com eles, e não consultar só aos seus próprios interesses.”[3] O relacionamento entre os cristãos deve ter como norte a graça de Deus e o Senhorio absoluto de Jesus. No dizer de Stott,

É maravilhoso ver como o apóstolo levanta a questão tão mundana como os nossos relacionamentos mútuos na comunidade cristã e a eleva a um nível teológico tão sublime como o da morte, ressurreição e consequente senhorio universal de Jesus! Por ser ele o nosso Senhor, nós devemos viver para ele; e, por ser também o Senhor dos outros cristãos, irmãos nossos, devemos respeitar a forma como estes se relacionam com ele e cuidar da nossa própria vida. Afinal, ele morreu e ressuscitou para ser Senhor.[4]

  1. Irmãos devem aceitar-se mutuamente (10a).

Não podemos desdenhar do fraco, e nem viver com carraca acusatória, não apenas porque Deus acolheu, ou porque Cristo ressurgiu para ser Senhor de todos, mas porque os crentes, em Cristo, formam uma família. Tanto o forte crente em Jesus, como o fraco que crê em Jesus são irmãos. “Quando nos lembramos disso, nossa atitude para com eles torna-se menos crítica e impaciente, e mais generosa e carinhosa.”[5]

  1. Todos irão comparecer diante do tribunal de Cristo Jesus (10b-12).

Não podemos julgar porque seremos todos julgados perante o tribunal de Cristo (10). Não creio que Paulo esteja proibindo toda forma de julgamento. Jesus disse: “Não julgueis, para que não sejais julgados. Pois, com o critério com que julgardes, sereis julgados; e, com a medida com que tiverdes medido, vos medirão também.” (Mateus 7:1-2, RA). Mesmo, quanto ao dito de Jesus, também não devemos crer que ele esteja proibindo todo julgamento, pois existem muitos outros textos que orientam o cristão a exercer o juízo crítico:

Acautelai-vos dos falsos profetas, que se vos apresentam disfarçados em ovelhas, mas por dentro são lobos roubadores. (Mateus 7:15, RA)

Para vergonha vo-lo digo. Não há, porventura, nem ao menos um sábio entre vós, que possa julgar no meio da irmandade? (1 Coríntios 6:5, RA)

Amados, não deis crédito a qualquer espírito; antes, provai os espíritos se procedem de Deus, porque muitos falsos profetas têm saído pelo mundo fora. Nisto reconheceis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; e todo espírito que não confessa a Jesus não procede de Deus; pelo contrário, este é o espírito do anticristo, a respeito do qual tendes ouvido que vem e, presentemente, já está no mundo. (1 João 4:1-3, RA)

O problema não é o juízo quando necessário, mas a mania de querer julgar até nas matérias indiferentes. Devemos lembrar que um dia, aqueles que gostam de viver julgando os outros, serão julgados por Deus. Deixemos, pois de querer usurpar a prerrogativa que é divina querendo exercer juízo sobre a vida daqueles que servem a Cristo e cuidemos em melhor servir ao Senhor a quem iremos prestar contas. Sobre este ponto Calvino diz algo muito importante:

Quando o apóstolo nos despe do direito de julgar, sua referência é tanto a pessoa quanto aos seus atos. Entretanto, há uma acentuada diferença entre esses dois elementos. Em referência ao homem, devemos deixá-lo, bem como tudo quanto ele é, à responsabilidade do tribunal divino. Em referência aos seus atos, não devemos julgar com base em nossa opinião pessoal, mas com base na Palavra de Deus. (…) Neste ponto, pois, o apóstolo deseja guardar-nos de formular algum juízo precipitado. Este é erro em que caímos quando ousamos pronunciar juízo contra a conduta humana sem o endosso da Palavra de Deus.[6]

Conclusão

Por que não devemos desprezar e condenar o fraco? Por que devemos aceitar o fraco? Porque Deus o acolheu, porque Cristo é o Senhor deles, porque eles são nossos irmãos e porque não somos juízes, embora devamos ser críticos. Quando assumirmos essas verdades nossos relacionamentos na igreja serão mais belos e santos.

[1] CRANFIELD, C.E.B. Comentário de Romanos. São Paulo: Vida Nova, 2005. p. 307

[2] HENDRIKSEN, William. Romanos. São Paulo: Cultura Cristã, 2001. p. 605

[3] BRUCE, F.F. Romanos: introdução e comentário. São Paulo: Vida Nova, 2005. p. 199

[4] STOTT, John. A mensagem de Romanos. São Paulo: ABU, 2000. p. 438

[5] Ibid., p. 439

[6] CALVINO, João. Exposição de Romanos. São Paulo: Paracletos, 1997. p. 467

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