História da Igreja Presbiteriana do Brasil: Memória e desafios.

Francisco Macena da Costa

Introdução

O salmista disse: “Com efeito, grandes coisas fez o Senhor por nós; por isso, estamos alegres.” (Salmos 126:3, RA) Da mesma forma que o salmista, todos nós, que fazemos da Igreja Presbiteriana do Brasil devemos louvar o Senhor com grande alegria porque, quando olhamos em nossa volta, e quando olhamos para o nosso passado, temos visto as grandes coisas que o Senhor tem feito por nós. Em breves linhas, almejamos destacar os principais fatos da história da nossa denominação. Ao recordar o nosso passado devemos observar a maneira como os nossos antepassados cumpriram o chamado do Senhor com coragem e fidelidade. Esse legado de paixão pelo Evangelho de Jesus Cristo deve nos servir de inspiração em nossa jornada, sabendo que a pregação da Palavra da cruz é uma tarefa impostergável e urgente.

 

O legado histórico dos presbiterianos do Brasil

O presbiterianismo que chegou ao Brasil trouxe em sua bagagem histórica as marcas de sua identidade profundamente ligada com a reforma protestante, as confissões puritanas e o avivalismo. Diante do nosso legado presbiteriano precisamos destacar três coisas:

  1. A importância da Reforma. Antes de tudo somos uma igreja cristã e nosso compromisso absoluto de consciência é com Cristo. Mas, no decorrer dos séculos, mesmo Deus preservando seu remanescente fiel, a Igreja Cristã afastou-se da simplicidade das Escrituras. Entretanto, no século XVI, Deus levantou homens como Martinho Lutero, Ulrico Zuínglio, João Calvino e John Knox para uma grande reforma da Igreja Cristã. Deve-se recordar, que foi através de Knox, que a igreja da Escócia foi reformada, e nesta igreja foi adotada a “doutrina e o sistema presbiteriano.”[1] Os pontos fundamentais da reforma foram os seguintes: somente a Escritura, somente Cristo, somente a graça, somente a fé, e somente a Deus toda a glória. Sobre este ponto, Horton disse algo muito importante: “Se nos convencermos de que a Reforma Protestante foi a maior recuperação do evangelho desde o tempo dos apóstolos e de que ela nos deixou com um tesouro no qual há riquezas para serem redescobertas por uma nova geração, então certamente uma nova reforma representará um alvo para nós.”[2]
  1. O valor da Confissão de Fé. A Igreja Presbiteriana do Brasil em sua Constituição afirma expressa a prioridade da Escritura em seguida assume como sistema expositivo de doutrina e prática a sua Confissão de Fé e os Catecismos Maior e Breve (CI/IPB, Art. 1). Mas de onde vem a Confissão de Fé e os Catecismos da nossa Igreja? Para responder a questão, precisamos recordar o dia 1 de julho de 1643 quando 151 teólogos reuniram-se na Abadia de Westminster para reformar a Igreja da Inglaterra. No dizer Sean Michael, “a assembléia produziu um padrão confessional que exerceu grande influência em cada área da igreja presbiteriana (…). Os padrões continuam a exercer essa forte influência ainda hoje.”[3]
  1. A dependência de Deus. No século XVIII houve um grande religioso nas colônias da Nova Inglaterra. Naqueles dias difíceis marcados pela falta de fervor espiritual, surgiu o “grande reavivamento.” Homens como Jonathan Edwards e George Whitefield foram poderosamente usados por Deus e muitas pessoas receberam Cristo como salvador. O historiador Robert H. Nichols sublinhou que o interesse missionário que surgiu pelos índios “foi um resultado direto do reavivamento.”[4] De acordo com Alderi foi  “sob o impacto desses acontecimentos, [que] nos anos seguintes dezenas de sociedades missionárias foram criadas nas Ilhas Britânicas e nos Estados Unidos, dando início ao que o historiador Kenneth S. Latourette denominou “o grande século das missões” na história do cristianismo.”[5]

 

Nosso pioneiro: Ashbel Green Simonton.

O missionário que trouxe a denominação presbiteriana para o Brasil chamava-se Ashbel Green Simonton (1833-1867). Nascido num lar tipicamente presbiteriano foi consagrado, por seus pais, ainda quando criança ao ministério pastoral. Em 1855 ocorreu um avivamento em sua comunidade local e Simonton sentiu-se chamado para o ministério pastoral e para as missões. Um dia ouvindo o sermão proferido por A. Hodge, na capela Princeton, Simonton dispôs com ainda mais vigor o seu coração e sua vida para a tarefa missionaria. Simonton chegou ao Brasil no dia 12 de agosto de 1859. Ele ficou profundamente maravilhado com o Rio de Janeiro. O esforço missionário de Simonton foi notável, especialmente porque todos os meios possíveis para anunciar o Evangelho ele usou. Simonton faleceu aos 34 anos em decorrência das complicações da febre amarela. Ele laçou as bases do presbiterianismo brasileiro.

“Em oitos de ministério no Brasil, além do aprendizado da língua, obteve bom saldo: recebeu oitenta pessoas por profissão de Fé, organizou a primeira igreja, a primeira escola paroquial, o primeiro jornal, o primeiro presbitério, o primeiro seminário… Deixou dezenas de sermões escritos, folhetos, traduções, além de parte de um comentário de Mateus.”[6]

Simonton não esteve sozinho. Ao dele, e depois dele outros irmãos continuaram o trabalho em prol da expansão do Evangelho no Brasil, dentre tantos destacamos: Alexander L. Blackford, Francis J. C. Schneider, George Chamberlain, Robert Lenington. Em 1869, a PCUS enviou para Campinas os pastores Edward Lane e George Morton. A história de Simonton, e dos pioneiros, nos deixou um grande legado de paixão, consagração, bravura e liderança para a pregação do Evangelho.

 

O primeiro pastor presbiteriano: José Manoel da Conceição.

Em 1863, Blackford começou a manter diálogo com um Padre chamado José Manuel da Conceição. “O padre protestante”, foi assim que ele ficou conhecido, pois permitia a leitura da Bíblia e mantinha uma certa proximidade com os protestantes. Como padre, Conceição “não esquentou o lugar” para onde era enviado, pois o bispo romano, temendo que ele estragasse o rebanho com suas meditações constantemente mudava sem itinerário de paróquia em paróquia. “E assim, sem que o percebessem, os bispos de São Paulo traçavam o itinerário da Reforma em sua diocese.”[7] Discipulado por Blackford, Conceição largou a batina.  Ele batizando no dia 23 de outubro de 1864 e participou ativamente da implantação da Igreja Presbiteriana de Brotas. Em 16 de dezembro de 1865 ele foi ordenado ministro presbiteriano. O seu sermão de prova foi baseado no seguinte texto: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar o ano aceitável do Senhor.” (Lucas 4:18-19, RA) Conceição não era um homem que gozava de boa saúde,

“As biografias de Conceição mostram um homem inquieto e melancólico, mas não fica claro se se tratava de algum problema de saúde ou se as dúvidas religiosas teriam afetado seriamente o seu comportamento. Logo após o seu batismo por Blackford, atitudes estranhas por parte dele começavam a preocupar os missionários, atitudes essas que o acompanharam durante toda a vida.”[8]

Muitas portas foram abertas para os pioneiros, mas também havia muitas dificuldades. Chegou um momento em que os pioneiros não sabiam mais como penetrar no país, principalmente em São Paulo. Eles tinham dificuldades em lidar com o povo comum, entrar na casa de gente simples, na verdade eles não estavam preparados para algumas realidades no Brasil. Já num estado de frustração, muitos dos pioneiros alegavam que o coração do povo era duro, queixavam-se do acanhamento nos lares e relatavam que muitos trabalhos não davam frutos. Foi nesse momento que surgiu a figura do Rev. Jose Manoel da Conceição. Ele ia de casa em casa, a procura de seus antigos fieis, e frente ao povo simples, sem muitos recursos retóricos, Conceição lia a bíblia, orava pela conversão daquela família, e procurava outras casas.

Esse trabalho preparou o terreno para o avanço do presbiterianismo em São Paulo e Minas Gerais. Conceição veio a ser “o homem que abriria ao protestantismo o interior do Brasil – conquistando não apenas indivíduos isolados mas famílias extensas e sólidas – assegurando assim seu estabelecimento.”[9] A história do Rev. José Manoel da Conceição é um exemplo do poder transformador do Evangelho, e de como o Senhor usa vasos de barro tão frágeis para colocar um tesouro tão precioso.

 

O presbiterianismo no Estado do Ceará.

O presbiterianismo no Ceará foi implantado através do árduo trabalho dos colportores (vendedores de bíblias) e de personalidades como a do Rev. John Rockwell Smith. Segundo Lessa, “não se pode falar sobre o presbiterianismo do Brasil omitindo a personalidade do Dr. Smith, o Simonton do Norte do país.”[10]

“Possuía o Dr. Smith vasta cultura teológica. Seus conhecimentos se fortaleciam na sua rica biblioteca, acrescida constantemente. No púlpito instruía os fiéis em sermões profundamente doutrinários. O pecado e suas consequências eram um dos seus temas prediletos. Calvinista rígido. Figura empolgante. Olhos de fogo como o do reformador. Vontade enérgica. (…) Consciencioso no cumprimento do dever. De temperamento nervoso, apaixonava-se pelas questões que se agitavam na igreja naqueles tempos. Pregava longos sermões, de 50 minutos pelo menos.”[11]

Em 6 de agosto de 1890 foi fundada a Igreja Presbiteriana de Fortaleza, tendo como pastor o Rev. Lacy Wardlaw. De todas as formas possíveis esses pioneiros buscavam proclamar Jesus e o seu Reino. Eles pregavam vigorosamente o Evangelho, escreviam artigos destacando a fé cristã e viajavam pelo pregando o Evangelho nos lares. O Evangelho foi pregado em meio a hostilidades.  Alencar destaca que “o Rev. Wardlaw foi vítima de muitas perseguições na cidade de Baturité-CE. Os seus adversários dirigiam-se ao Hotel onde estava hospedado e atiravam terra no seu prato de comida, impedindo-o de alimentar-se.”[12] Lessa destacou o Rev. Wardlaw como “homem enérgico e corajoso” e que “não se intimidava nas perseguições.”[13]

Um dos personagens mais expressivos da nossa história, que não podemos esquecer, foi o Rev. Natanael Cortez. Nascido em um lar católico, Natanael Cortez teve um acesso ao Evangelho através do Rev. Wardlaw que deu uma Bíblia ao seu pai. João Valera, que era seu primo, foi também seu discipulador. Natanael Cortez se tornou presbiteriano e tempos depois foi enviado ao seminário de Recife onde cursou teologia, sendo ordenado ministro do Evangelho no dia 18 de janeiro de 1915. O Rev. Natanael Cortez foi um homem dedicado a proclamação da Palavra de Deus no interior do Ceará. O coração dele era apaixonado pela pregação do Evangelho, tal paixão podia ser vista pela maneira como ele registrava os momentos do cultos no interior. Em um dos cultos na Congregação Ebenézer, que ficava no sítio do Vencedor, propriedade da família Nogueira, que era uma das famílias pioneiras do presbiterianismo no Ceará, o Rev. Natanael Cortez sublinhou: “Mais de duzentas pessoas que nunca tinham ouvido do amor de Deus em Cristo, a elas falei desta boa e alegre nova de conforto e paz.”[14]

“Para cumprir seu trabalho de evangelização, Natanael empreendia longas viagens, que duravam até vinte dias. Seu transporte geralmente era um animal de carga, por ser o melhor meio de vencer as dificuldades de acesso às longínquas localidades do interior do Ceará. Hotéis e pensões eram coisas raras e a pousada e comida dependiam quase sempre da bondade de estranhos, que por vezes lhe eram negadas, por se ele protestante.”[15]

O presbiterianismo de Fortaleza precisa recordar essa história. Precisa lembrar-se do legado dos pioneiros, sem perder de vista o labor de homens que consagraram suas vidas para falar do amor de Cristo em meio a tantas adversidades.

Conclusão

Os presbiterianos de hoje precisam lembrar-se da história dos pioneiros. Não podemos, é verdade, repristinar o passado, e nem tão pouco absolutizá-lo sob o risco de incorrer em idolatria, mas em hipótese nenhuma podemos desprezá-lo. Ao lembrar nosso legado lembremos as grandes coisas que o Senhor tem feito por nossa denominação. Lembremos que a igreja reformada deve continuar se reformando. Busquemos viver uma vida pura com doutrina pura. Que tenhamos um coração disposto a falar do amor de Jesus em dias tão difíceis. Que o Senhor nos ajude!

[1] LEITH, John H. A tradição reformada: uma maneira de ser a comunidade cristã. São Paulo: Pendão Real, 1996. p. 210

[2] HORTON, Michael. In: BOICE, James B. et al. Reforma hoje. São Paulo: Cultura Cristã, 1999. p. 101

[3] LUCAS, Sean Michael. O cristão presbiteriano. São Paulo: Cultura Cristã, 2011. p. 163

[4] NICHOLS, Robert Hastings. História da Igreja Cristã. São Paulo: Cultura Cristã, 2000. p. 285

[5] MATOS, Alderi. In: LUCAS, Sean Michael. O cristão presbiteriano. p. 202.

[6] FERREIRA, Júlio A. História da Igreja Presbiteriana do Brasil, volume I. São Paulo: Casa Editora Presbiteriana, 1992. p. 89

[7] op. cit., p. 46

[8] MENDONÇA, Antônio Gouvêa. O celeste porvir: a inserção do protestantismo no Brasil. São Paulo: Paulinas, 1984. p. 84

[9] LÉONARD, Émile-Guillaume. O protestantismo brasileiro: estudo de eclesiologia e de história social. Rio de Janeiro; São Paulo: JUERP/ASTE, 1981. p. 56

[10] LESSA, Vicente Themudo. Anais da primeira Igreja de São Paulo. São Paulo: Cultura Cristã, 2012. p. 251

[11] op. cit., p. 252

[12] ALENCAR, Francisco Alves de. Igreja Presbiteriana de Fortaleza: 120 anos transformando vidas. Fortaleza: Nacional, 2005. p. 67

[13] LESSA, Vicente Themudo. Anais da primeira Igreja de São Paulo. p. 463

[14] CORTEZ, Natanael. In: VIANA, Paulo (Org.). A sagrada peleja: diário de um pastor no Ceará. Fortaleza: Universidade Federal do Ceará/Casa de José de Alencar, 2001, v. I.p. 135

[15] GADELHA, Francisco Agileu de Lima. O Ceará da trilha da nova fé. Fortaleza: UECE, 2005. p. 102

Anúncios