Mateus 5:33-37. 

“Também ouvistes que foi dito aos antigos: Não jurarás falso, mas cumprirás rigorosamente para com o Senhor os teus juramentos. Eu, porém, vos digo: de modo algum jureis; nem pelo céu, por ser o trono de Deus; nem pela terra, por ser estrado de seus pés; nem por Jerusalém, por ser cidade do grande Rei; nem jures pela tua cabeça, porque não podes tornar um cabelo branco ou preto. Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não. O que disto passar vem do maligno.”

 Sem dúvida, um dos eventos mais importantes da história do cristianismo foi à reforma protestante do séc. XVI, tanto que ainda hoje a partir de uma multiplicidade de ângulos diferentes o surgimento dos cristãos protestantes na história tem sido interpretado de várias maneiras. A apologética católica romana tende a desdenhar o movimento reformista, dizendo que não passa de um devaneio de padre louco por mulheres e sexo; por outro existe um visão protestante romantizada, quiçá, utópico sobre a reforma, que tende a apresentar versões canonizadas de Lutero.

 Sabendo de tais extremos, hoje, quando celebramos a Reforma queremos ouvir a Palavra de Deus que nos chama entender o valor do sim e do não.  Lutero entendeu essa Palavra do Evangelho e creio que a lembrança de alguns fatos relacionados a vida de Martinho de Lutero podem nos ajudar de aplicação e ilustração do dito do Senhor Jesus acerca do sim e do não.

                          I.   Pensando em viver para Deus.

 Martinho Lutero nasceu no dia 10 de novembro de 1483 na Alemanha, precisamente em Eisleben. Seu pai era um mineiro e se chamava Hans, já sua mãe se chamava Margaretha, uma mulher religiosa e supersticiosa que costumava por ervas em sua casa para proteger seu lar de demônios e duendes. Por meio de trabalho e da disciplina Hans conseguiu estabilidade econômica se tornando de certa forma se tornou um burguês que gozava os benefícios do resultado do seu trabalho, mas que ânsia como bom pai prover a melhor educação para os seus filhos. O sonho pessoal de Hans era para Lutero se dedicasse ao direito, tanto que aos 18 anos de idade Lutero foi matriculado na universidade de Eufurt e tudo indicava uma carreira promissora, tendo em vista que a forma como o jovem Lutero se destacava como orador e estudioso, no entanto, pouco dias depois de começar seus estudos em direito, o jovem Martinho decidiu viajar para Mansfeld e quando na sua volta no dia 2 de julho de 1505 a cidade foi atingida por um temporal e um raio violentamente caiu sobre o seu companheiro de viagem fulminado-o imediatamente. Aquela cena encheu o coração de Lutero com o pavor da morte, tanto que ele bradou a padroeira dos mineiros; ‘Ajuda-me, Santa Ana, e me tornarei monge!’.

 Aquele um momento decisivo para Lutero, tanto que ele depois escreveu;

“Me arrependi este voto e muitos queriam dissuadir-me. Contudo, perseverei em meu propósito e convidei os dois melhores amigos para a despedida e para que, no dia seguinte, me levassem ao convento. Quando quiseram reter-me, disse-lhes: ‘Hoje me vedes pela última vez’. Então, com lágrimas no rosto, me acompanharam. Também meu pai muito se irou com minha promessa, mas fiquei firme em minha decisão. Nunca cogitei de abandonar o convento. Havia morrido completamente para o mundo.”

Foi dessa maneira que Lutero lembrou-se de Deus. Ele lembrou na hora da angustia, diante do pavor da morte, naquele tempo o caminho para Deus era a vida monástica e para o mosteiro ele foi.

O homem precisa de Deus e em algum momento da vida ele vai encarar esse fato.

                         II.   A ineficiência da religião no coração do homem.

Lutero ingressou no mosteiro dos “agostinianos eremitas observantes” que era um dos mosteiros com fama de rigoroso, mas onde era dada a oportunidade de continuar os estudos. O jovem noviço Lutero se dedicou integralmente a vida monástica sendo ordenado em 3 de abril de 1507. Em 2 de Maio do mesmo ano ele rezou a primeira missa, naquela oportunidade quase fugiu da presença do altar sagrado por julga-se corrupto e indigno de ministrar o sacrifício incruento da missa diante da santidade e da justiça de Deus. Não bastasse o desassossego da alma de Lutero por causa do sacrifício da missa, o seu pai o confrontou naquela ocasião dizendo que ele deu mais crédito a um raio do que ao quarto mandamento que manda honrar pai e mãe.

Como estudioso aplicado logo, Lutero se tornou um mestre, mas sua crise existencial continuava a se agravar, mas houve um padre com muito se compadeceu na situação de Lutero, seu nome era Johann Von Staupitz. Ele encorajou Lutero a tornar-se doutor em teologia e além disse teve muita paciência em aconselhá-lo nas suas lutas contra o pecado e existiram momentos em Lutero estava tão angustiado que passava mais de duas horas confessando seus pecados e depois de poucos minutos voltava para confessar outro pecado que porventura havia se esquecido de confessar. Numa dessas, Staupitz disse:

“Irmão Martinho, se você vai confessar tanto assim, porque não faz algo digno de ser confessado? Mate sua mãe ou seu pai! Cometa adultério! Pare de vir aqui com mais tolices e pecados falsos”

A dor de Lutero era tão intensa que ele chegou a duvidar das suas atitudes penitenciais, pois já não sabia se sentia arrependimento ou medo. Quanto mais Lutero tentava tornar-se justo mais desesperado ele se sentia por causa da presença real do seu pecado. Compadecido de Lutero, Staupitz o orientou a ler a bíblia. Em meio a suas lutas internas Lutero foi a Roma em 1511 e lá rezou missas, visitou lugares sagrados. Como sufrágio pela alma do seu pai no purgatório, Lutero subiu de joelhos a escadaria de Roma rezando em cada degrau um pai nosso. Mas foi tudo em vão.

Tempos depois na universidade de Wittenberg tornou-se doutor em teologia e jurou o seguinte voto:

“Profiro publicamente um caro voto pela Sagrada Escritura e prometo, para a vida toda, estudá-la e pregar sua mensagem, e defender a fé cristã contra todos os hereges, por discussão e escritos. Que Deus me ajude.”

O sofrimento de Lutero parecia não ter mais fim e foi nessa honra dentro da sua cela enquanto estudava a carta de Paulo aos romanos que seus olhos foram abertos e ele pode encontrar sossego quando leu: “‘Concluímos pois, que o homem é justificado pela fé, independentemente das obras da lei’(Romanos 3.28).

Lutero após essa experiência disse:Agora eu considerava a escritura Sagrada de maenira diferente, e tornei-me alegre, como que renascido, sim, como se tivesse entrado pelos portais abertos do próprio paraíso.”

A experiência de Lutero só revela que a religião pode entreter por algum momento o coração do homem mas não pode sarar sua feridas.

 

                        III.   O impacto da Palavra de Deus na vida de Lutero.

Tocado pela Palavra, Lutero passou a interpretar o mundo medieval, a realidade da igreja, os movimentos culturais a luz da bíblia Sagrada e quanto mais ele mergulhava na Palavra mais se acentuava em sua mente as discrepâncias da igreja romana. A luz para Palavra Lutero criticou;

  • · A filosofia – Ele dizia especulações eram como “fumaça”; a razão para Lutero era a meretriz do diabo.
  • · E própria escolástica – teólogos escolásticos eram como porcos; Enquanto todos diziam que ninguém poderia ser teólogo sem a ajuda de Aristóteles, Lutero reafirmava que o teólogo deveria se livrar de Aristóteles.

Sob a autoridade das Escrituras, absolutamente descolado do papado, Lutero ensinava e pregava a teologia dos livros dos salmos; romanos; hebreus, gálatas. E começa a anunciar a necessidade de uma reforma na igreja.

 Lutero entendeu que qualquer teologia, confissão, credo ou catecismo só tem valor se estiver em harmonia com a verdade de que da Palavra do Senhor que diz: “Havendo Deus, outrora, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias, nos falou pelo Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, pelo qual também fez o universo. Ele, que é o resplendor da glória e a expressão exata do seu Ser, sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, depois de ter feito a purificação dos pecados, assentou-se à direita da Majestade, nas alturas, tendo-se tornado tão superior aos anjos quanto herdou mais excelente nome do que eles. ” (Hebreus 1:1-4, RA)

                       IV.   O grito profético por reforma.

Todavia, foi somente em 1517 que a postura reformista de Lutero se revelou totalmente. Por aquele tempo passeava pela Alemanha um palrador chamado J. Tetzel e o próprio Lutero descreve esse momento:

“Aconteceu no ano quando se escrevia 17, que um monge pregador de nome Tetzel, um grande berrador, carregava por aí as indulgências, gritando, e vendia graça a dinheiro, tão caro ou tão barato quanto podia. Naquele tempo eu era pregador aqui no mosteiro e jovem doutor, imbuído de ardente amor pela Escritura Sagrada. Observando que muita gente de Wittenberg corria atrás das indulgências, comecei a pregar, cautelosamente, que se poderia fazer algo melhor e de maior certeza do que adquirir indulgência. Então escrevi uma carta com teses ao Bispo de Magdeburgo, para que mandasse parar o Tetzel e o impedisse de pregar coisa tão inconveniente para que não resultasse em escâncalo. Mas não tive resposta. Portanto, minhas teses contra os abusos de Tetzel foram postas a público e em apenas 14 dias percorreram a Alemanha toda.” 

Certo da necessidade de reforma, Lutero escolheu o dia 31 de outubro de 1517 para afixar nas portas da catedral de Wittenberg 95 cinco teses contra as indulgencias papais. Algumas de suas teses foram as seguintes;

 “1. Quando o nosso Senhor e Mestre Jesus Cristo disse: ‘Arrependei-vos!’ ele quis que toda a vida dos crentes fosse um só arrependimento. 

27. Pregam futilidades humanas quantos afirmam que, tão logo a moeda tinir na caixa, a alma se eleva do purgatório. 

32. Serão eternamente condenados juntamente com seus mestres, aqueles que julgam obter certeza da salvação mediante cartas de indulgência.

36. Todo e qualquer cristão verdadeiramente compungido tem pelno perdão da pena e da culpa, o qual lhe pertence mesmo sem carta de indulgência.

50. Deve-se ensinar os cristãos que, se o Papa tivesse conhecimento das extorsões dos pregadores de indulgência, preferiria ver a catedral de São Pedro ser reduzida a cinzas a ser edificada com a pele, a carne e os ossos de suas ovelhas.

62. O verdadeiro tesouro da Igreja é o santíssimo Evangelho da glória e da graça de Deus.

94. Admoestem-se os cristãos a que se empenhem em seguir seu cabeça, Cristo, através de padecimento, morte e einferno.

95. E assim esperem mais entrar no reino dos céus através de muitas tribulações do que facilitados mediante consolações infundadas.

                        V.   As pressões contrárias.

As idéias de Lutero correram a Europa como o fogo acende quando toca na palha seca. Obviamente Roma não assistiu passivamente a idéias do monge agostiniano. Em 1518, Lutero foi chamado a presença do Papa Leão X, para num prazo de 60 dias explicar as novas exposições para Roma. Foi por esse tempo que Eck encostou Lutero no canto da parede acusando-o de herege já que ele defendia as idéias de Hus que fora condenado em Constança por ensinar que os concílios erram. A princípio Lutero negou tal acusação, mas consultado, os escritos descobriu que Eck estava certo e disse: Sim, sou hussita. Os papas erram e os concílios erram também. A essa alturas Lutero já mandara a autoridade do papa as favas, para ele a verdadeira autoridade era a das Sagradas Escrituras somente.

Na ótica de Roma tais palavras foram suficientes para fabricar o herege e em 1520 chegou às mãos de Lutero a bula de excomunhão (Exsurge Domine) que o intimava a se retratar de todos os seus escritos. Nessa bula o Papa chama Lutero de Javali da floresta cuja língua é como fogo. Diante tais palavras do bispo de Roma, Lutero tocou fogo na bula do papa e em outros documentos da igreja. Dessa forma publicamente Lutero rompeu com Roma.

Ainda em 1520, Lutero escreveu obras profundas, tais como;

  • · “Do Cativeiro Babilônico da Igreja”;
  • · “Da Liberdade Cristã”;
  • · “A Sua Majestade Imperial e à Nobreza Cristã na Alemanha, Sobre a Renovação da Vida Cristã” ;
  • · “Sermão sobre as Boas Obras”. Nesse ultimo ele disse:

 

“O cristão é um livre senhor de todas as coisas e não submisso a ninguém – pela fé. O cristão é um servidor de todas as coisas e submisso a todos – pelo amor. As boas obras não fazem um bom cristão, mas um bom cristão faz boas obras.”

Quanto mais Lutero escrevia, ainda mais Roma se movimentava para silenciá-lo, foi quando em 1521 foi convocado para a dieta de Worns presidida pelo jovem imperador Carlos V. Corajosamente Lutero disse:

“Ainda que houvesse em Worms tantos demonios como há telhas sobre as casas, contudo lá entrarei.”

Quando a dieta foi aberta lá estava Lutero e seus escritos estavam sob a mesa da autoridade imperial. Eram tantos livros que os assessores desconfiaram da capacidade de alguém escrever tanto. Na reunião Lutero foi chamado a se retratar dos seus escritos contra Roma. E ele disse:

“Não posso nem quero retratar-me a menos que seja convencido de erro à base de palavra bíblica ou por outros argumentos claros da razão; porque não é aconselhável agir contra a consciência. Aqui estou; de outra maneira não posso. Que Deus me ajude! Amém.”

                       VI.   Sim, sim, não, não.

Daí em diante Lutero deu continuidade a reforma da Igreja, apoiado pela nobreza alemã ele traduziu a bíblia para o alemão, compôs muitos hinos, em 1525 ele casou com Catarina Von Bora e teve filhos a saber; Em o primogênito, Hans (1526); depois Elisabeth (1527), Madalena (1529), Martinho (1531), Paulo (1533) e Margarete (1534).

Lutero ainda viveu para compor o hino “castelo forte”, viu uma de suas filhinhas morrer, redigiu a confissão de Augsburg e concluiu a tradução da bíblia para o alemão. Sobre esse fato ele disse:

“Agora tendes a Bíblia em alemão; agora quero terminar de trabalhar, pois tendes o que deveis ter. Contudo cuidai de usá-la devidamente depois de minha morte. Não a percais, lêde-a com zelo e sob temor de Deus e oração. Pois se ela fica florescendo e é usada corretamente, tudo está bem e se desenvolve de maneira feliz.”

Em 1526, com 62 anos, Lutero retornou a Eisleben. Era uma viajem relativamente longa e a saúde de Lutero já era debilitada tanto que em fevereiro daquele ano ele adoeceu de cansaço. Em meio a muitas dores o velho Lutero agonizava, chegou a citar o salmo 31 (nas tuas mãos entrego o meu espírito). Nessa hora, Jonas que era um dos amigos da família perguntou em voz alta:

Reverendo padre, quereis perseverar em Jesus Cristo e na doutrina como a pregaste? Lutero respondeu claramente: “Sim”.

Depois disso Lutero partiu para a glória celestial para encontrar alívio nos braços de Deus.

 

Conclusão.

Irmãos e irmãs, Jesus disse: Seja, porém, a tua palavra: Sim, sim; não, não. O que disto passar vem do maligno.Nosso Senhor está nos ensinando que devemos ser crentes com posicionamentos objetivos e definidos. No mundo de tantas mentiras, as vezes em pequenas questões cotidianas as pessoas assumem posições tão falsas e ambíguas que somente o juramento tomando em nome de Deus poderia legitimar um voto.

Jesus nos ensina o valor do sim e valor do não. Lutero no leito da morte entendeu essa palavra de Jesus e quando inquirido sobre sua perseverança em Cristo e na doutrina pregada ele respondeu positivamente. Ele disse sim para a verdade de Cristo e automaticamente disse não para vossa autoridade papal e todos os desvios doutrinários de Roma.

Que hoje os herdeiros da reforma possam também perseverar em dizer sim para a verdade das Escrituras Sagradas. No mundo de tantas mentiras, de tantas doutrinas falsas e de tantas pessoas falsas possamos afirmar positivamente até o fim que;

Somente as Escrituras é nossa regra de fé e de prática.

Somente a graça pode nos libertar do pecado.

Somente Cristo salva, somente Cristo é o cabeça da igreja, somente Cristo é nosso advogado

Somente a fé nos dá a certeza do amor de Deus.

Somente Deus merece toda honra, glória e Louvor.

Que o nosso sim que afirmamos para Deus se reverbere para o mundo com autêntico não;

“não” para as tradições e o bispo de Roma e as pseudo-revelações dos fanáticos,

“não” para os méritos humanos

“não” para os falsos mediadores

“não” para arrogância religiosa

“não” para a idolatria onde quer que ela exista.

Que Deus tenha misericórdia de nós e nos ajude.

Rev. Francisco Macena da Costa.

Todas as frases de Lutero foram extraídas do site da http://www.luteranos.com.br/categories/Quem-Somos/Nossa-Hist%F3ria/Martim-Lutero/A-Vida-de-Martim-Lutero/

Referencias bibliográficas

  • Momentos Decisivos na História da Igreja, Mark A. Noll (Cultura Cristã)
  • Teologia dos Reformadores, Timothy George (Vida Nova)
  • História da Igreja Cristã, Robert H. Nichols (Cultura Cristã)
  • Crise e Renovação da Igreja no Período da Reforma, Martin N. Dreher (Sinodal)
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