Vivendo a vocação de Deus nos tempos de mudanças. 

Texto base: (1 Samuel 8:1-22, RA)

 

“Tendo Samuel envelhecido, constituiu seus filhos por juízes sobre Israel. O primogênito chamava-se Joel, e o segundo, Abias; e foram juízes em Berseba. Porém seus filhos não andaram pelos caminhos dele; antes, se inclinaram à avareza, e aceitaram subornos, e perverteram o direito. Então, os anciãos todos de Israel se congregaram, e vieram a Samuel, a Ramá, e lhe disseram: Vê, já estás velho, e teus filhos não andam pelos teus caminhos; constitui-nos, pois, agora, um rei sobre nós, para que nos governe, como o têm todas as nações. Porém esta palavra não agradou a Samuel, quando disseram: Dá-nos um rei, para que nos governe. Então, Samuel orou ao Senhor. Disse o Senhor a Samuel: Atende à voz do povo em tudo quanto te diz, pois não te rejeitou a ti, mas a mim, para eu não reinar sobre ele. Segundo todas as obras que fez desde o dia em que o tirei do Egito até hoje, pois a mim me deixou, e a outros deuses serviu, assim também o faz a ti. Agora, pois, atende à sua voz, porém adverte-o solenemente e explica-lhe qual será o direito do rei que houver de reinar sobre ele. Referiu Samuel todas as palavras do Senhor ao povo, que lhe pedia um rei, e disse: Este será o direito do rei que houver de reinar sobre vós: ele tomará os vossos filhos e os empregará no serviço dos seus carros e como seus cavaleiros, para que corram adiante deles; e os porá uns por capitães de mil e capitães de cinqüenta; outros para lavrarem os seus campos e ceifarem as suas messes; e outros para fabricarem suas armas de guerra e o aparelhamento de seus carros. Tomará as vossas filhas para perfumistas, cozinheiras e padeiras. Tomará o melhor das vossas lavouras, e das vossas vinhas, e dos vossos olivais e o dará aos seus servidores. As vossas sementeiras e as vossas vinhas dizimará, para dar aos seus oficiais e aos seus servidores. Também tomará os vossos servos, e as vossas servas, e os vossos melhores jovens, e os vossos jumentos e os empregará no seu trabalho. Dizimará o vosso rebanho, e vós lhe sereis por servos. Então, naquele dia, clamareis por causa do vosso rei que houverdes escolhido; mas o Senhor não vos ouvirá naquele dia. Porém o povo não atendeu à voz de Samuel e disse: Não! Mas teremos um rei sobre nós. Para que sejamos também como todas as nações; o nosso rei poderá governar-nos, sair adiante de nós e fazer as nossas guerras. Ouvindo, pois, Samuel todas as palavras do povo, as repetiu perante o Senhor. Então, o Senhor disse a Samuel: Atende à sua voz e estabelece-lhe um rei. Samuel disse aos filhos de Israel: Volte cada um para sua cidade.”

 

 

Em 1949, o filósofo britânico J.R.R Tolkien escreveu o romance o Senhor dos Anéis e em 2001 o cinema transformou em filme a saga de Frondo e o Anel, em meio ao mundo mitológico da terra média povoado por elfos, ocks e anões. No primeiro filme chamado de A sociedade do Anel, a voz de uma Elfa passa a descrever o mundo dizendo: O mundo mudou. De fato romance de Tolkien foi escrito num contexto de guerra, ambições, industrialização e desconfiança acerca da religião tanto protestante como católica. Realmente o mundo estava mudando e ainda hoje o mundo contraditoriamente ainda está mudando. É fato, as pessoas estão mudando, a cultura, a religião, a economia, os conceitos, as regras, enfim nada escapa a força da mudança que torna o mundo obsoleto, indicando senilidades e abrindo espaço para a chegada do novo. Definitivamente não é fácil viver num mundo em transformação tendo em vista as exigências de acomodação, adaptação, aprendizado e rupturas. Será que como servos de Deus estamos sujeitos a viver a tensão dos tempos de mudança? Claro que sim. E é sobre esse ponto que vamos falar hoje. Como base em 1 Samuel 8.1-22, vamos buscar compreender como poderemos viver a vocação cristã no tempo de constante transformação. Dentre tantas coisas que o texto sagrado nos ensina, em primeiro lugar devemos compreender que;

 

 

                          I.   Tempos de mudanças é reflexão acerca dos posicionamentos assumidos. (1-5)

 

O tempo descrito no texto que acabamos de ler expõe dinâmicas pertinentes a transição da estrutura do juizado em Israel para a monarquia. Em meio as quebras de paradigmas o deutoronomista nos apresenta um clima notoriamente tenso em virtude de posicionamentos assumidos. Nos versos 1-5 podemos discernir pelo menos 3 posicionamentos.

 

  1. No verso 1 e 2 o autor sacro nos revela o conservadorismo de Samuel, que já velho prepara a sucessão do seus ministério na pessoa de seus filhos (Joel e Abias). Nas tradições bíblicas, Samuel além de profeta se tornou um grande juiz no meio do povo de Israel. Sua função o responsabilizava tanto em transmitir os oráculos de Deus como interferir politicamente no governo da nação. Sendo assim a sucessão do juizado não é apenas uma substituição do idoso pelos jovens, mais que isso, a sucessão de Samuel representa a conservação, o continuísmo da estrutura do juizado.

Entretanto o zelo excessivo de Samuel, seu conservadorismo, ou melhor, seu tradicionalismo fez com que ele desconsiderasse um principio basilar das tradições acerca do juizado. Em toda a história bíblica dos juízes, absolutamente nenhum deles escolheu seus sucessores, antes todos foram chamados por Javé para desempenhas seus carismas. O biblista Paul R. House em sua Teologia do Antigo Testamento afirma que “é surpreendente que Samuel procure nomear os filhos, que são homens injustos, para serem juízes em Israel”. 

Todavia por meio do tradicionalismo de Samuel a tradição da investidura divina foi substituída e por mais que o coração de Samuel contemplasse a conservação de boas tradições, o fato é que por meio de seu tradicionalismo ele trancafiou seu coração para o mover de Deus, ele usurpou a atitude de Deus, indevidamente ele se posicionou no lugar de Javé. Tão zeloso em conservar o tradicional, Samuel se posicionou contra a tradição da liberdade de Javé.

 

  1. Mas além da postura conservadora, o autor sagrado nos aponta no verso 3, a corrupção dos filhos de Samuel. Eles são juízes pela decisão de Samuel, todavia são homens totalmente desprovidos de compromisso com Javé. Nem sequer eles levaram em conta todo o capital do legado de Samuel, antes usaram o poder de forma equivocada, tendo em vista que o juizado não tinha um significado sagrado para eles e por isso mesmo eles fizeram uso do poder para promover injustiças. Eles romperam com o propósito do juizado instituído por Javé. Ao invés de servir e proteger o povo, eles aceitaram suborno e julgavam de forma injusta. Os filhos de Samuel incrivelmente não eram conservadores. Se podemos classificá-los de acordo com posicionamentos assumidos eu diria que eles eram personagens secularizados, ou seja, vivem no mundo suas vocações sem o mínimo de consideração ao sagrado.

 

  1. Outro posicionamento destacado no texto está no verso 4 e 5. Está registrado que os anciões subiram para uma assembléia com Samuel e a pauta dessa reunião contemplava alguns pontos;

 

          O primeiro ponto era a velhice de Samuel. Ainda que o conselho de anciões reconhecesse em parte a liderança de Samuel os lideres foram realistas, quiçá, pragmáticos e sem fazer meandros falaram diretamente ao profeta dizendo: “Vê, já estás velho”.  É como se estivessem falando: “Você foi um grande líder, mas agora você está velho por isso precisamos de uma nova liderança”.

 

          Mas ainda tinha outro ponto levantado pelos anciões, a saber: o fracasso dos filhos de Samuel. De acordo com o conselho não é somente a velhice de Samuel o problema, mas a própria liderança dos filhos de Samuel se revelará um fracasso em termos de governo, tendo em vista que os sucessores do profeta, embora sendo filhos, não andaram no caminho do pai. Os anciões estão certos de que nem Samuel serve para liderar o povo e nem mesmo os seus filhos. Ao que parece o conselho que encerrar o ciclo de Samuel alegando sua senilidade e seu fracasso como pai e como político na transição do poder para os seus filhos.

 

          Por fim a pauta do conselho dos anciões foi concluída com um pedido inovador e progressista. O conselho reivindicou diante de Samuel dizendo: “constitui-nos, pois, agora, um rei sobre nós, para que nos governe, como o têm todas as nações.” (1 Samuel 8:5, RA)”. Em outras palavras o conselho estava disposto a romper com a liderança de Samuel em seu conservadorismo, bem como com a postura decadente da gestão dos seus filhos. Os anciões querem um rei, ou seja, eles querem uma mudança radical com uma nova estrutura, mais que isso nós queremos ser como as outras nações. Ele não querem mais juízes, não querem nem mesmo os filhos dos juízes. No fundo o posicionamento dos anciões escancara um desejo para um abertura político religiosa de dimensões profundas, tendo em vista que eles querem receber influencias das nações pagãs, querem seguir os modelos e as estruturas de poder do paganismo. Assim sendo, é possível afirmar que a posição progressista dos anciões, mostra que por traz de certos anseios por mudanças existe o desejo de copiar o mundo pagão com base em critérios meramente pragmáticos. O biblista W. Eichordt observou que no mundo daquela época o rei era também um “interprete infalível da vontade divina” isso nos leva a deduzir que os anciões ao pedirem um rei estavam requerendo uma nova liderança religiosa capaz de estorvar e substituir o carisma dos juízes.

 

Irmãos e irmãs, nós também estamos vivendo um tempo de grandes mudanças estruturais em quase todas as áreas da sociedade e do saber humano. Talvez a diferença entre nós e tempo do texto sagrado esteja no fato de que no passado as mudanças eram gestadas em um ritmo compassado e hoje as mudanças são rápidas e prematuras, por isso mesmo em meio a tantas transformações o texto sagrado hoje nos alerta acerca de três perigos que rondam o povo de Deus.

 

                     Tenhamos cuidado com o tradicionalismo. No mundo em transformação, como disse Karl Marx “tudo o que é solido se dissolve no ar”. Precisamos estar atentos as mudanças porque dentro dos processos se instalam elementos emocionais e psicológicos de incertezas, que fertilizam o terreno do tradicionalismo. Assim sendo quando na medida em que o mundo se transforma em meio as incertezas, o séquito tradicionalista retroalimenta a si mesmo e seus adeptos com o falso sentimento de segurança exposto em posições rígidas e conservadoras que se levantam como reação ao novo. A questão em si não é a diabolização do novo e a sacralização do velho como se fosse uma tensão maniqueitas, mas o perigo está na ideologia conservadora inflexível que no objetivo de conservar estruturas se fecham para o mover de Deus livre e soberano revelado na história do seu povo. Assim como fez Samuel, muitos hoje fecharam suas mentes para o novo, vivem tentando conservar as coisas do passado dentro de padrões rígidos que vão desde esquemas doutrinários e litúrgicos, indo até mesmo a questões de ética e moral. Há muitos hoje que no desejo de conservar estruturas querem viver como a igreja viveu no passado e na ânsia de proteger as tradições acabam levantando um muro de isolamento em relação ao tempo atual.

Em tempos de mudanças tenhamos o tradicionalismo porque muitas vezes ele é visto como emblema de ortodoxia e obediência a Deus, mas que pode na verdade apenas servir como pretexto para legitimar a desobediência ao agir soberano do Senhor Deus. Tenhamos cuidado para que em nome do tradicionalismo não venhamos a negligenciar o fato de Jesus nos convoca a viver uma nova vida que rompe com estruturas, inclusive religiosas (At 10)

 

                     Igualmente tenhamos cuidado com a secularização. Os filhos de Samuel aceitaram o juizado como cargo, mas não tinha amor ao espírito do juizado. Eles estavam investidos numa função sagrado, todavia eles não deram nenhum valor a piedade que lhes era requerida. Ainda hoje a atitude dos filhos de Samuel pode ser vista quando;

 

 

         O culto se transforma em show da fé

         O milagre se torna mercadoria de consumo

         A igreja vira empresa

         O altar vira palco

         Quando os vocacionados viram profissionais

         Quando a oferta vira investimento

         A pregação vira palestra de auto-estima

         O pastor vira animador de platéias

         A fé vira manifestação estética sem atitudes éticas.

 

No tempo das mudanças a postura secularizada se torna perigosa porque testemunha uma piedade falsa onde só existem formas e atos encenados por traz de mascaras, todavia falta atitudes concretas de amor a Deus e espiritualidade genuína.

 

                     Tenhamos cuidado com as propostas progressistas. Quantas vezes as pessoas procuram pastores, presbíteros e conselheiros dizendo: precisamos mudar, temos que ser diferentes, temos que copiar o que está dando certo pelo de fora da nossa igreja. Dizem assim: deixemos as velhas estruturas, os velhos líderes, os velhos conselhos e vamos à busca do novo. Precisamos de uma nova unção, um novo batismo, uma nova doutrina, uma nova forma de adoração, um novo governo, um novo líder e etc.

Queridos assim como devemos ter cuidado com os tradicionalistas, precisamos ter cuidados com os progressistas que querem desmontar todas as coisas indiscriminadamente tomando por base critérios mundanos. Tenhamos cuidado porque por traz de certos mecanismos de mudança há interesses camuflados, de tal forma que quando se apela para o novo, em muitos casos o que se quer na verdade é abrir a igreja para receber o lixo do mundo. Por traz de apelos pelo novo, não está a abertura para o poder de Deus, mas para as ideologias desse mundo.

 

Tempo de mudança é tempo de posicionamentos que podem esconder elementos de afronta a Deus, mas onde podemos encontrar luz para não pecar contra o Senhor na virada dos tempos? Para viver as transformações dos tempos discernindo a vontade de Deus precisamos entender que;

 

                         II.   Tempo de mudança é tempo de buscar a direção de Deus. (6-9)

 

Veja que diante das rupturas e das quebras de paradigmas o autor sagrado nos mostra o profeta Samuel entrando no lugar sagrada da intimidade com Deus a fim de buscar luz e discernimento. Preste atenção na experiência de Samuel com Deus dentro do turbilhão das mudanças.

 

  1. No verso 6 vemos o desagrado de Samuel que ficou internamente perturbado em suas emoções com as palavras dos anciões que pediram um rei. O velho profeta estava emocionado, estava sofrendo internamente com a retaliação do povo. Definitivamente Samuel não era a parede morta do santuário de Siló, muito pelo contrario, ele era um homem comum sujeito a desagrados e tristezas. Não julguemos a situação de Samuel como uma depressão de um velho, consideremos alguns fatos, aliás, consideremos o legado do profeta. De acordo com a história bíblica, Samuel é fruto de um milagre de Deus. Ele nasceu como resposta as orações de sua mãe Ana que prometeu consagrá-lo a Deus caso fosse ouvida na sua agonia. Deus se compadeceu de Ana e ele gerou um menino que quando nasceu passou a ser chamado de Samuel. Ainda numa tenra idade o menino foi conduzido ao templo e lá ficou como consagrado ao Senhor. Depois de um tempo veio uma voz do céu que convocou o jovem menino para ser um profeta em Israel e depois se tornar o um dos juízes mais influentes na história dos judeus. Agora na velhice, chegam os cabelos brancos, o vigor não é mais o mesmo, a voz já não tem a mesma força, talvez até a memória já não tenha a mesma capacidade de outrora. Assim por causa da velhice Samuel tem uma história, todavia o tempo fez dele um inútil que para nada mais serve.

Ser chamado de inútil é golpe muito duro e foi exatamente isso que o conselho fez com Samuel. Depois de tanto tempo de serviços prestados o chamaram de inútil quando reafirmaram a necessidade de um rei que substituísse o profeta.

 

  1. Ainda no verso 6, é nos dito que Samuel orou. Não sabemos o que foi o conteúdo dessa oração, mas podemos afirmar que a prece do profeta está relacionada à entrega de todos os seus sentimentos e pensamentos que surgiram em decorrência do pedido do conselho de anciões. Isso mostra que Samuel não se deixou ser guiado pelas emoções, antes ele buscou em Deus derramar tudo o que ele estava sentindo. Servir nunca foi uma tarefa fácil, nem mesmo aos que já chegaram às cãs, até mesmo para eles o ministério é uma obra a ser realizada em meio a conflitos, frustrações e tristezas.

 

  1. Nos versos 7 até 9, Deus cuida do coração do velho profeta. E é importante destacar a forma como Deus cuida do profeta, aliás, do estado de espírito de Samuel. O Senhor esclarece a realidade para o profeta fornecendo a ele uma leitura exata das intenções do povo. Na verdade o povo não quer somente uma mudança de estrutura no fundo eles desejam romper a aliança com o Senhor. Veja que Deus cuida do coração de Samuel se colocando ao lado do profeta.

“Disse o Senhor a Samuel: Atende à voz do povo em tudo quanto te diz, pois não te rejeitou a ti, mas a mim, para eu não reinar sobre ele. Segundo todas as obras que fez desde o dia em que o tirei do Egito até hoje, pois a mim me deixou, e a outros deuses serviu, assim também o faz a ti.” (1 Samuel 8:7-8, RA)

Samuel foi considerado como um juiz reacionário, velho e inútil. Para cuidar do coração do seu profeta Deus se coloca do seu como inútil. O Senhor revela ao velho Samuel que não foi o seu ministério que estava sendo rejeitado, na verdade o povo estava rejeitando o próprio Deus. O senhor estava dizendo ao seu profeta que por traz da rejeição do conselho que argumentava a velhice, o fracasso e sucesso da monarquia, havia o desejo de afastamento do relacionamento com Senhor. Deus mesmo evoca a história da salvação e a forma como o povo se deixa seduzir pelos deuses estrangeiros. Em outras palavras a inutilidade de Samuel é reflexo do coração de um povo que a muito considerou Deus como sendo inútil. O senhor também ensinou ao velho profeta que tudo estava sob controle. No verso 9 o Senhor disse: “Agora, pois, atende à sua voz, porém adverte-o solenemente e explica-lhe qual será o direito do rei que houver de reinar sobre ele.” (1 Samuel 8:9, RA). Com essa ordem o Senhor revelou ao profeta que as mudanças estavam debaixo da vontade de Javé. Note também que foi dada mais um tarefa ao velho profeta, seria pela liderança de Samuel que o rei seria ungido em Israel e cabe ao juiz ensinar ao povo as conseqüências de uma monarquia. O texto bíblico mostra que aqueles que buscar servir a Deus ainda que falho nunca são descartados. Deus concede funcionalidade aos inúteis.

 

Irmãos e irmãs, servir a Deus é tarefa cheia de obstáculos e tensões, principalmente na ambiência da incerteza quando o tempo se encarrega de trazer mudanças. Servir a Deus de certa forma é uma tarefa passional até para o ser mais racionalista que possa existir nesse mundo. Tanto faz se você tem um ano da igreja ou 100 anos, todos nós estamos sujeitos a decepções e tristezas por causa de críticas, cobranças, boicotes, falácias e etc. Nenhum cristão está blindado acerca dessas coisas. Logo a questão é o que você faz quando fica triste com a igreja? Quando você fica machucado por causa de interesses de outros e por causa de forças que planejam mudar o rumo das estruturas o que você faz? Eu conheço pessoas que falam mal da igreja e juntam-se a outros para apontar o dedo para a noiva de Cristo. Samuel não se furtou de sofrer pela igreja, mas não se juntou ao coral dos acusadores, antes ele entrou no lugar sagrado da intimidade com Deus para derramar toda sua tristeza na presença do Senhor. Façamos o mesmo que Samuel. Irmãos e irmãs, ao invés de nos juntamos ao coro dos acusadores, voltemos nossos olhos ao céu. Confie em Deus e saiba que Deus vai cuidar do seu coração, ele vai abrir os teus olhos. Se disponha a ouvir a voz de Deus e ele vai que revelar que muito da frieza espiritual não está relacionado a estruturas, sistemas dogmáticos, estética litúrgica ou coisa que o valha, a raiz da retaliação ao a igreja, está no afastamento das pessoas de Deus. Não tem nada haver com as formas como a realidade está configurada. Quando não há amor a Deus tudo passa a ser motivo de murmúrio.

Logo, por meio da experiência de Samuel podemos hoje aprender que a insatisfação das pessoas com a postura de seus lideres está muitas vezes relacionado com insatisfação acerca do próprio Deus. Às vezes dedicamos todo tempo, esforço, investimos recursos e quando os pragmáticos se levantam em nome dos resultados, logo desconsideram histórias, vínculos que não agregam números mas agregam afeto e amor pela igreja e pela verdade de Deus, mas infelizmente a memória curta sepulta servos de Deus antes do tempo. Mas saiba, nessa hora em nome de Jesus que Deus concede funcionalidade aos inúteis. Não há imprestáveis no exército de Cristo, por isso ainda que muitos desconsiderem a simplicidade das coisas de Deus (tais como oração, pregação, comunhão etc.) procure assumir com mais força o chamado de Deus em sua vida. Tudo está sob controle de Deus, por isso mesmo aqueles que o mundo considera como inúteis nas mãos de Deus se tornam instrumentos das verdadeiras transformações.

 

Finalmente o texto nos ensina que;

 

                        III.   Tempo de mudança é tempo de fidelidade integral ao Senhor. (10-22)

 

Até aqui vimos que o profeta Samuel esteve imerso em todo um contexto de situações instáveis e movediças, todavia o Senhor se revelou no controle de todas as coisas trazendo luz e direção para o coração do seu servo, mas além de direção o Senhor concedeu ao seu profeta uma tarefa importantíssima para ser por ele cumprida. Diante da ordem soberana de Deus, o já idoso Samuel considera todas as palavras de Deus com fidelidade.

 

  1. Na virada dos tempos, mas diante de Deus; Samuel responde com fidelidade a Palavra de Deus. No verso 12 é nos dito que Samuel referiu todas as Palavras que foram ditas pelo Senhor ao povo e assim ele expôs com solicitude as implicações estruturais pertinentes as uma monarquia que naquele momento anunciava alienação do futuro dos filhos e dos bens materiais. Samuel disse ao povo;

 

“Este será o direito do rei que houver de reinar sobre vós: ele tomará os vossos filhos e os empregará no serviço dos seus carros e como seus cavaleiros, para que corram adiante deles; e os porá uns por capitães de mil e capitães de cinqüenta; outros para lavrarem os seus campos e ceifarem as suas messes; e outros para fabricarem suas armas de guerra e o aparelhamento de seus carros. Tomará as vossas filhas para perfumistas, cozinheiras e padeiras. Tomará o melhor das vossas lavouras, e das vossas vinhas, e dos vossos olivais e o dará aos seus servidores. As vossas sementeiras e as vossas vinhas dizimará, para dar aos seus oficiais e aos seus servidores. Também tomará os vossos servos, e as vossas servas, e os vossos melhores jovens, e os vossos jumentos e os empregará no seu trabalho. Dizimará o vosso rebanho, e vós lhe sereis por servos. Então, naquele dia, clamareis por causa do vosso rei que houverdes escolhido; mas o Senhor não vos ouvirá naquele dia.” (1 Samuel 8:11-18, RA)

 

 

  1. Perceba ainda que na virada dos tempos, Samuel mostrou fidelidade a Deus; apesar do anseio sugestionado pela maioria. Acompanhe no verso 19 e note que ainda depois de esclarecido pelo profeta as implicações nefastas de uma monarquia segundo o paradigma das nações, o povo não deu conta a tais palavras, antes reiterou com mais força ainda o desejo de mudar. O texto diz que;

 

“O povo não atendeu à voz de Samuel e disse: Não! Mas teremos um rei sobre nós. Para que sejamos também como todas as nações; o nosso rei poderá governar-nos, sair adiante de nós e fazer as nossas guerras.” (1 Samuel 8:19-20, RA)

 

Em outras palavras, o povo estava tão amarrado a propaganda mundana que nem sequer teve condições de racionalizar os custos negativos de uma monarquia pagã. Ainda que tão mudança significasse em algum momento a quebra do concerto com Deus, o povo mesmo assim, estava disposto a assumir a transição de poder. O povo seduzido pelo mundo, já havia decidido categoricamente pela liderança de um rei guerreiro. E aqui fica evidente, que no primeiro momento, o velho profeta foi rejeitado, todavia agora é a Palavra de Deus que foi rejeitada, confirmando assim a rebeldia pecaminosa do povo em não aceitar a lealdade do Senhor.

 

 

  1. O texto termina nos versos 21 e 22, mostrando efetivamente na virada dos tempos, Samuel descansou fielmente diante da soberania de Deus. Veja que as palavras do povo foram como uma segunda rejeição da liderança de Samuel, mas ele curado de suas emoções e absolutamente seguro da soberania de Deus, mais uma vez ele expõe a voz do povo diante do Senhor. E de acordo com o texto sagrado Deus disse: “Então, o Senhor disse a Samuel: Atende à sua voz e estabelece-lhe um rei”. O texto em seguida mostra que o profeta seguro em relação à direção de Deus, disse aos filhos de Israel: Volte cada um para sua casa. Com essas palavras o povo foi despedido. O texto deixa claro que o povo desejou um rei, mas a voz que efetivamente constituiu um rei é a palavra ultima do Senhor. Ao despedir o povo, Samuel reconheceu que nada mais havia para discutir com o povo, pois o todo poderoso em sua soberania definiu o tempo e a história. No tempo das mudanças não prevalece a vontade das massas, mas a vontade de Deus.

 

Meus irmãos e minhas irmãs, o Senhor Jesus nos alertou no seu evangelho que não se pode servir a dois senhores. Não podemos ser um povo indeciso, não podemos deixar o nosso coração ser seduzido pelas coisas do mundo. Precisamos hoje aprender da palavra de Deus que como igreja do Senhor, ainda que os tempos, estruturas e ideologias estejam em constante mudança, devemos permanecer fieis a Deus e a sua Palavra.

Certamente não será fácil ser fiel a Palavra de Deus quando a maioria decide abraçar os modelos mundanos em detrimento do relacionamento verdadeiro com o Senhor. A fidelidade a Deus muitas vezes se manifesta em tomar a decisão a favor de Deus contra o mundo ainda que isso implique em desagradar a maioria.

Meu irmão e minha irmã, pela força a Deus, peçam a direção de Deus, peça graça ao Senhor porque uma das situações mais difíceis que um servo de Deus pode passar é quando tem que se viver a tensão de assumir a verdade em nome de Deus quando o povo quer exatamente o contrário da vontade de Deus. Isso acontece muito hoje, quando uma confraria de gente descompromissada com as coisas de Deus vem cantando o mantra da mudança. Dizem eles; precisamos mudar! Mas o que eles querem mudar? Ora mudança para gente descompromissada com Deus é copiar a alegria do mundo, as formas do mundo, os palavras do mundo. E é impressionante com o poder de sedução do mundo é forte, pois por mais que você afirme as implicações nefastas da aliança com mundo, de nada serve ou quase nada serve. Quando o mundo entra no coração não existe resposta positiva para com as coisas de Deus.

Servir a Deus num tempo de mudanças é muito difícil, até porque aqueles que cantam a litania da mudança, não se contentam, mas fazem juízos e ameaças. Dizem a igreja vai acabar se as coisas não mudarem! Se não houver um acomodação aos nossos costumes modernos não haverá nenhum jovem na Igreja! Vivemos novos tempos e precisamos de coisas novas! Irmãos e irmãs, nem sempre é fácil ouvir tais palavras, mas ainda assim, em Nome de Jesus confie na soberania de Deus. Seja fiel a Palavra de Deus, tudo está sob o controle do Senhor. O mantra dos apostatas um dia cessará, mas a Palavra do Senhor permanecerá para sempre. Nada poderá impedir a vitória do Plano de Deus, por isso assuma o desgaste, se prepare para chorar, se prepare para se taxada de antiquado, ultrapassado, inútil, se prepare para enfrentar tempos difíceis, sabendo, porém que o importa é ser encontrado com despenseiro fiel a Deus. Rejeite os aplausos do mundo, sirva a Deus com inteireza de coração na certeza que no final receberemos do Senhor a imarcescível coroa da glória.

 

 

No passado um grupo de filósofos na antiga Grécia abstraindo o mundo afirmaram que nossos sentidos nos mostram que o mundo está em constante transformação, e essa comprovação fez com que Heráclito o naturalista ensinasse que tudo é dinâmico. Dizia ele: “Tudo se move, tudo escore (panta rhei). “Não se pode descer duas vezes o mesmo rio e não se pode tocar duas vezes uma substância mortal no mesmo estado, pois, por causa da impetuosidade e da velocidade da mudança, ela se dispersa e se reúne, vem e vai. (…) Nós descemos e não descemos pelo mesmo rio, nós próprios somos e não somos”.

 

Os tempos estão mudando, a igreja está mudando, as pessoas estão mudando, estruturas e organizações estão mudando. Não tenho nada contra as mudanças, principalmente quando as mudanças são operadas pelo Senhor Jesus Cristo, assim vejo que precisamos obviamente mudar em muitas coisas a fim de largar o velho homem, para viver a nova vida que nos é proposta por Deus em Cristo.

Ainda assim, não se engane, pois, existe mudança e mudança. Há gritos por mudanças que escondem coisas nefastas. Há gritos por mudanças que carregam apostasia em relação ao Deus vivo. Nós estamos vivendo esse tempo de mudança e estamos diante dessas ambigüidades, por isso tenha cuidado com seus posicionamentos, tenha cuidados com a leitura que seu coração faz. Saiba que nossos posicionamentos e nossos corações estão sujeitos a erros e enganos. Mudanças sugestionam sentimentos de inseguranças, mas o crente sabe que acima das mudanças existe um lugar seguro na intimidade com Senhor, assim sendo, busquemos o Senhor em oração pedindo luz em nosso coração para discernir a dinâmica escondida por traz do apelo mundano por mudanças. Em meio às transformações sejamos fieis a Deus, ainda que isso represente o desgaste de ir contra o povo. Sejamos fieis a Deus sabendo que existiram mudanças que não podemos conter e impedir, por isso não desista, não desanime, pois tudo está sob o controle do Senhor.

 

Rev. Francisco Macena da Costa.

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