SER MAIS EM 2017

 

E digo isto a vós outros que conheceis o tempo: já é hora de vos despertardes do sono; porque a nossa salvação está, agora, mais perto do que quando no princípio cremos.

Rm 13.11

As cortinas do ano de 2016 começaram a se fechar. Que ano! Fomos testemunhas de fatos históricos no campo da política, da economia e da religião. Se tivermos tempo, vamos ter muitas coisas para contar. Infelizmente, vamos ter mais fatos ruins do que bons para lembrar e contar. Não é sem razão que, para muitos, 2017 vem como sinal de esperança de tempos melhores. O bom estímulo está exatamente nesse movimento do calendário, em trazer, de tempos em tempos, a nota de esperança que chega imersa em retrospectivas, autocríticas e sonhos. Em certo sentido, pode-se dizer que a expressão #acabalogo2016 surge como uma oração ao Tempo.

Pensar o tempo é um exercício inescapável aos seres humanos. Martin Heidegger (1889-1976), um dos mais extraordinários filósofos do século XX, escreveu sobre a relação do ser e o tempo. Ele procurou explicar como a existência é moldada no tempo. Para ele, o “ser aí” (Da-sein) constitui um ser no tempo, um viver de maneira autêntica e, ao mesmo tempo, um estar aberto para novos sentidos e significados frutos da dinâmica existencial. Não seria estranho se dizer que o “ser aí” em 2016 se construiu num tempo desilusão, frustração, abatimento e falência de mitos. Uma vida autêntica precisa encontrar novas formas de vivência dentro do tempo, ainda que não se consiga superar o peso do nada, a saber, da morte. Logo, trata-se de aproveitar o tempo que resta. Como Dooyeweerd bem explicou, no existencialismo o homem reconhece “que a sua liberdade é uma liberdade em direção à morte”. (No Crepúsculo do pensamento, p. 246). Apesar do alto teor abstrato do pensamento filosófico, muitos vivem dentro das categorias do pensamento de Heidegger, e simplesmente se lançam numa busca irracional pelo novo, com uma forte dose desespero, tudo isso em “Full HD” compartilhado socialmente em esfera digital através dos hábitos das redes sociais.

Acho que o “ser aí” de Heidegger tateia em algumas coisas certas, mas não em tudo. Heidegger está certo, por exemplo, quando nos chama para pensar o tempo. É importante, muitas vezes, questionar a história, as tradições, e os preconceitos. Algumas tradições são prisões da alma. Contudo, existe a necessidade de cavar mais fundo no ser para discernir o fato de que o coração molda o tempo de certa maneira – e molda de um jeito errado na maioria das vezes. Não é difícil ver o tempo moldar atitudes de fora para dentro, mas é preciso ser mais realista para reconhecer como o coração dirige o tempo de acordo com ideias enganosas e corruptas. Como resultado disso os seres humanos sofrem no tempo os resultados do seu distanciamento de Deus. Nesse ponto, e em muitos outros, ao contrário do que pensa o Heidegger, não há nada novo debaixo do sol (Ec 1.9-10). O problema do ser humano continua o mesmo, e se ele não nascer do alto jamais poderá experimentar uma vida autêntica (Jo 10.10)

Para os cristãos o tempo é algo bom. Deus criou o tempo e nos deu condições de organizar nossa história dentro dele (Gn 1.14-19) As pessoas podem ser tornar mais sábias quando aprendem a contar os dias (Sl 91.12). O tempo é breve e passa rápido (Sl 90.9-10), quando menos esperamos o tempo passou. Ele está passando agora. E quando finalmente recebemos o discernimento para conhecer o tempo, por meio de Jesus Cristo, passamos a ver uma série de demandas éticas que nos estimulam para a santidade de vida (Rm 13.11-14). Os cristãos também acreditam que um dia o atual estado de coisas, marcado por dores e angustias, será superado por um novo tempo, um novo céu e uma nova terra. Essa é a nossa maior esperança, a esperança da ressurreição. Não se trata de um ser-para-a-morte, mas de ser-para-a-vida-eterna (Ap 21.4)

O tempo é uma oportunidade para ser melhor. O imperativo é ser melhor em 2017. O objetivo é ser mais santo, bondoso, amoroso, piedoso, sábio, misericordioso com os outros, enfim, o imperativo é ser mais parecido com Cristo (Fl 4.8) Nessa grande oportunidade de re-agendamento da vida, espero que o Deus que é de eternidade a eternidade te dê mais graça para aproveitar o tempo da maneira certa, com um coração novo, com motivações novas, com uma mente nova e especialmente, com o firme desejo de trilhar a direção do seguimento de Jesus Cristo, pois Nele tudo se faz novo (2Co 5.17).

Feliz ano novo!

Rev. Francisco Macena da Costa

Fortaleza, 29 de dezembro de 2016.

Cambeba, Fortaleza – CE